Reflexões sobre a vida (Revista Se7e, julho/2003)

Neste mês decidi falar de três filmes bem interessantes: Italiano para Principiantes, Pão e Tulipas e Depois da Vida. Aparentemente eles parecem ser bem distintos entre si, mas todos refletem sobre a vida que escolhemos viver.

Italiano para Principiantes é um filme que faz parte do movimento dinamarquês Dogma 95, que surgiu em meados da década passada com o objetivo de revolucionar a arte de fazer filmes, ou seja, voltar a filmar com simplicidade (sem uso de luz artificial ou música incidental, por exemplo). O filme segue estes parâmetros, mas ao contrário dos outros filmes do grupo, de temáticas mais dramáticas e pessimistas (Festa de Família, Mifune, Os idiotas), este é leve, apesar de tratar de um grupo de solitários e seus pequenos problemas. Os personagens encontram um novo sentido em suas vidas ao freqüentar semanalmente a turma de italiano, organizada pela prefeitura da pequena cidade em que vivem. À medida em que as ligações entre eles vão sendo reveladas na trama, o público vai sendo cativado também por suas histórias. Vale a pena ser visto por seu otimismo e bom humor.

Pão e Tulipas também é um desses filmes agradáveis, recomendáveis para toda a família. É uma chance também para conhecer uma boa produção do novo cinema italiano, que há anos não faz jus ao seu passado glorioso, quando contava com nomes como Fellini, Antonioni e Visconti. De repente, uma dona de casa entediada vê a chance de dar um novo rumo à sua vida quando se perde do marido e do resto da excursão na beira da estrada. Decide se mudar para a bela Veneza e lá arruma um novo emprego e novas amizades, que lhe ensinarão (e aprenderão com ela) o que é viver.

Depois da Vida nos leva a pensar nas escolhas que fazemos durante a vida a partir de uma premissa importante: a morte. Na história, todos que morrem têm uma semana para escolher um único momento de suas vidas para reviver eternamente. Os que não conseguem se decidir tornam-se funcionários desta estação de passagem entre a vida e a morte, que funciona como uma espécie de repartição pública, onde devem bater o ponto diariamente.

Os funcionários realizam entrevistas pessoais com os recém-chegados (e até emprestam fitas de vídeo, referentes a cada ano) para auxiliá-los na escolha do momento ideal. O prazo é o seguinte: três dias para a decisão e quatro dias para recriar o momento em estúdio, onde uma equipe filma e depois apresenta o resultado à pessoa para aprovação.

Os personagens são os mais diversos: um punk revoltado, um combatente da II Guerra, uma adolescente inocente e uma velhinha caseira, entre outros. Cada qual vivencia o seu drama ao relembrar a vida, o que acaba afetando dois jovens funcionários, que decidem optar entre “eternizar” ou não. É um filme muito interessante. O elenco conta com atores profissionais e não profissionais, o que aproxima as atuações dos comportamentos da vida real. A visão japonesa da morte é bem diferente da visão hollywoodiana e só por isso já vale a pena ser conhecida.

Bem, estas são as sugestões deste mês. Até o próximo.



Raquel Maranhão Sá

<< Voltar


Todos os direitos reservados
Raquel Sá - 2004